Quando a educação cria raízes, transforma gerações
EDUCAÇÃO
Eunice Torres Nascimento


As imagens de estudantes em Bangladesh celebrando a vitória do Brasil sobre o Japão chamaram a atenção pela alegria, pela energia e pela verdadeira paixão com que acompanhavam a nossa seleção. Soube que a comemoração aconteceu na Universidade Internacional de Daffodil, em Daca, a milhares de quilômetros do nosso país. E fiquei pensando que, ainda assim, as bandeiras, as camisas e os gritos de torcida faziam aquela cena parecer muito próxima de nós. É bonito perceber como o Brasil, especialmente por meio do futebol, conseguiu conquistar o carinho de um povo tão distante geograficamente.
Mas...você sabia que essa admiração não surgiu agora? A paixão de Bangladesh pelo futebol brasileiro é descrita como uma tradição que atravessa gerações e faz parte da relação do país com as seleções sul-americanas. Ainda sobre essas imagens, nos últimos dias, também circulou a história de que Sheikh Mujibur Rahman, considerado o fundador de Bangladesh, teria traduzido uma biografia de Pelé e transformado a obra em leitura obrigatória nas escolas. A informação é interessante e ajuda a compreender a força que uma referência cultural pode alcançar. Embora não haja confirmação suficiente em fontes oficiais ou em veículos importantes do próprio país, a cena da torcida nos convida a uma reflexão importante.
Quando uma ideia, uma referência ou um hábito é cultivado durante muitos anos, ele cria raízes e passa de uma geração para outra, fortalecendo vínculos. Além disso, pode até se tornar parte da identidade de uma sociedade. É assim que eu acredito que devemos pensar a educação.
A educação não pode ser tratada como uma ação temporária, que muda completamente a cada gestão ou desaparece quando termina um governo. O sistema educacional de um país deve ser um projeto permanente de Estado, com continuidade, planejamento e compromisso de longo prazo, pois nenhuma transformação educacional acontece de um dia para o outro. É preciso tempo para melhorar a aprendizagem, valorizar os professores, fortalecer as escolas, estimular a leitura, formar profissionais e criar uma verdadeira cultura de conhecimento. Os resultados mais profundos aparecem quando existe persistência e quando toda a sociedade compreende que educar é uma responsabilidade coletiva.
No Amazonas, essa necessidade é ainda maior, uma vez que precisamos construir políticas educacionais que considerem as diferentes realidades do nosso estado. Políticas públicas que cheguem às periferias de Manaus, aos municípios do interior, às comunidades rurais e ribeirinhas. Não podemos aceitar que a distância ou a falta de estrutura determinem quem terá acesso ao conhecimento e quem continuará sem oportunidades. Isso significa investir na valorização dos professores, na ampliação de bibliotecas e projetos de leitura, na utilização da tecnologia para aproximar territórios, no fortalecimento da educação profissional e na garantia de que nossos jovens consigam enxergar no estudo um caminho possível para o trabalho, para a autonomia e para uma vida melhor.
Ademais, precisamos compreender que a educação vai além da transmissão de conteúdos. É pela educação que formamos valores, ampliamos horizontes, fortalecemos a cidadania e ajudamos cada pessoa a descobrir seus talentos. Uma sociedade que lê, estuda e valoriza o conhecimento se torna mais preparada para enfrentar seus problemas, desenvolver sua economia e cuidar de seu próprio futuro.
A alegria dos estudantes de Bangladesh nos mostra como as referências culturais podem atravessar fronteiras e permanecer vivas durante décadas. Que essa imagem também nos ajude a pensar no que desejamos cultivar em nosso povo. Eu sonho com um Amazonas em que o amor pela leitura, pelo aprendizado e pelo conhecimento também atravesse gerações. Um estado em que a educação não seja uma promessa repetida, mas uma construção contínua, capaz de criar raízes profundas e transformar verdadeiramente a vida das pessoas.
Porque as grandes mudanças começam com uma ideia bem cultivada, um compromisso mantido ao longo do tempo e a certeza de que educar é preparar o presente para construir um futuro melhor.