Combater a Violência Contra a Mulher é uma Urgência Inadiável

DIREITOS DAS MULHERES

Eunice Torres Nascimento

12/8/20252 min read

Nas últimas semanas, o Brasil acompanhou, estarrecido, uma sequência de crimes brutais contra mulheres: feminicídios, agressões físicas, violência sexual, sequestros e tentativas de homicídio que ganharam repercussão nacional. Cada caso que chega às manchetes faz parte de uma realidade estrutural que insiste em se repetir. O que temos visto não é exceção, não são episódios isolados, mas sintoma de um problema crônico que ameaça vidas todos os dias.

A violência contra a mulher no Brasil alcançou proporções que não podem mais ser tratadas como números ou estatísticas passageiras. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, só em 2023 o país registrou mais de 1.400 feminicídios, o maior número da série histórica. Em média, uma mulher é assassinada a cada 6 horas simplesmente por ser mulher. Além disso, mais de 260 mil casos de violência doméstica são notificados por ano, embora se saiba que a subnotificação é enorme. Muitas não denunciam por medo, dependência financeira, vergonha ou falta de apoio.

Essas mortes não acontecem “de repente”. Quase sempre são o desfecho de um ciclo silencioso de ameaças, humilhações, agressões e controle psicológico que poderia ter sido interrompido se os sinais tivessem sido levados a sério. Diante desse cenário assustador é preciso dizer abertamente que a sociedade ainda naturaliza a violência masculina e responsabiliza as vítimas – e isso custa vidas.

A cada nova tragédia, somos levados a perguntar: o que falhou? Falhou o Estado, quando os mecanismos de proteção não chegam aonde deveriam. Falhou a cultura, que ainda tolera o machismo e a desigualdade de gênero. Falhou a rede de apoio, que deveria acolher e orientar, e muitas vezes não consegue alcançar quem mais precisa. Falhamos todos quando normalizamos pequenas violências diárias que, não raro, se transformam em crimes extremos.

Ainda assim, é preciso ressaltar que mudanças reais dependem de políticas públicas eficazes e contínuas. Embora a Lei Maria da Penha seja uma das mais avançadas do mundo, ainda encontra barreiras em sua aplicação. Por isso, é urgente fortalecer as Delegacias da Mulher, ampliar o número de casas-abrigo, garantir atendimento psicológico gratuito, oferecer suporte jurídico, promover a autonomia financeira e implementar estratégias de prevenção dentro das escolas, desde a infância. Também precisamos de campanhas permanentes que ajudem a identificar sinais de abuso e incentivem denúncias seguras. O agressor raramente age escondido; ele age impune.

A luta contra a violência de gênero é, sobretudo, uma luta por humanidade. Nenhuma mulher deve viver com medo dentro da própria casa. Nenhuma mãe deve deixar seus filhos sem amparo porque o Estado não foi rápido o bastante. Nenhuma jovem deve ter sua vida interrompida por alguém que acreditou ter direito sobre seu corpo ou sobre seu destino. A cada mulher que perde a vida, perdemos, como sociedade, a chance de sermos melhores. E, diante dessa urgência, não há espaço para silêncio. A conscientização precisa ser permanente, e o compromisso de proteger vidas precisa ser coletivo.

Que este momento tão doloroso sirva como impulso para mudanças que não podem mais ser adiadas. A violência contra a mulher não é um problema das mulheres. É um problema do Brasil – e só será superado quando houver responsabilidade, educação, políticas consistentes e coragem para romper o ciclo que ainda aprisiona tantas vidas.